Cara ou coroa?






Cara



​Vou lhe contar toda a história, reuni forças para isso, todos precisam saber o que aconteceu, não consigo carregar mais esse fardo.


Eu tinha um filho, oito meses, sim, isso mesmo, oito meses de vida, foi o que pôde viver. Oito meses de amor, carinhos e cuidados, foi uma gestação difícil, quase perdi meu pequeno. Ele era meu mundo, e foi tirado de mim, foi tirado do mundo. Existe um buraco na minha vida, e quem cavou... foi o monstro do meu marido. Nunca pôde ser chamado de pai, ele nunca aceitou nosso filho. Ele dizia: “Isso não é meu filho, isso é uma aberração, isso não deve nem ter um nome”. Sim, desde que meu filho nasceu ele o rejeitou. Nunca me deixou sair de casa, o parto foi natural, ele mesmo que me ajudou, nunca pretendeu registrar o anjo. Esse homem não pode ser chamado de humano.


Logo depois da concepção, fiquei trancada no quarto. Ele me trazia remédios, dizia que era para anemia ou que era para aumentar a produção de leite, mas eu sabia que ele mentia. Ele queria me fazer dormir para levar meu bebê. Nunca tomei, eu segurava na boca e cuspia quando ele saía.


Depois de um tempo ele me deixou sair do quarto. Não larguei meu filho nem por um segundo, ele até pediu para segurar, mas eu sabia que não podia confiar. Quando ele não conseguia o que queria, ficava furioso e tentava arrancá-lo dos meus braços. Então eu corria e me trancava no quarto. Ele esmurrava a porta e gritava: “Essa coisa não é meu filho e eu vou dar um jeito nisso!”.


Um certo dia comi um sanduíche, fui eu mesma quem fiz, afinal ele estava tentando me dopar. Depois de comer me senti zonza, aquele maldito havia misturado algo na manteiga ou no pão.


Acordei horas depois, meu pequenino não estava do meu lado. O desespero tomou conta de mim, corri pela casa gritando por meu filho, procurando como louca. Então vejo a porta de trás aberta — fazia muito tempo que ele não deixava uma porta destrancada. E ele estava no quintal dos fundos, com uma pá na mão; ele olhou para mim e chorou dizendo que agora podíamos ser só nós dois de novo.


Coroa


​Vocês precisam saber a verdade, não deixem que ela os engane. Sempre amei essa mulher e, quando descobrimos que estávamos esperando um filho, meu mundo se iluminou. Porém, uma complicação na gestação a fez perder o bebê. Ficamos arrasados, mas ela não aceitou a perda e surtou. A única maneira de protegê-la dela mesma foi fazer uma boneca de pano. Eu mesmo fiz, e Deus como me arrependo disso.


Quando a entreguei a ela, seu rosto se iluminou, mas logo percebi o erro. Seu rosto se transformou de um jeito que me deu medo. Ela dizia: “Nosso filho é lindo, obrigado por ajudar no parto”. Então tudo saiu do controle. Ela queria registrar a boneca, queria que eu ajudasse a escolher um nome, tentei tirar ela do quarto e levá-la a um médico, ela não aceitou. Nada a fazia mudar de ideia. Várias vezes se escondia pela casa com aquela coisa que chamava de filho, então a tranquei no quarto. Levei um médico até a nossa casa, que a viu e receitou antipsicóticos. Tentei fazer o tratamento, mas não acredito que ela tomou realmente algum remédio.


Sim, tentei várias vezes tirar a boneca, queria separá-las, precisava fazer algo. Até tentei entrar na viagem dela, mas ela não aceitava, não confiava em mim e eu... perdia o controle e gritava com ela.


A única forma de me livrar daquilo era tirar de perto dela. Foi então que tive a brilhante ideia de colocar calmantes no filtro da água. O plano demorou, mas deu certo. Quando vi ela sucumbir ao sono, tratei de retirar aquilo dos braços dela, corri até o quintal, queimei e enterrei. Agora estou aqui esclarecendo toda a situação.




Delegado


​Ouvi as duas versões da história, confesso que nunca peguei um caso assim. O laudo aponta para lugar nenhum: não encontramos o médico envolvido, não encontramos um corpo ou cinzas de uma boneca. Ali havia indícios de que existia um bebê, porém exames mostram que a mãe não passou por processo de parto.


E enquanto ninguém conseguir me dizer com certeza se ali tinha um bebê de oito meses... ou só uma boneca, esse caso vai ficar aqui. No ar. Sem ponto final.


Acredito que existem casos que não se resolvem em uma delegacia, e sim na cabeça dos envolvidos.


(Me digam em qual das versões se pode acreditar , a mulher ou o marido ? Loucura , ou crime? )

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