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Mostrando postagens de julho, 2026
Peças sobressalentes
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A mulher que me carregava no ventre tentou um aborto, tentou me tirar à força, mas lutei. Houve mais duas tentativas frustradas, eu lutei e venci. Nasci quase saudável, pois as tentativas de me arrancar das entranhas da vida me tiraram os movimentos da cintura para baixo. Sim, é isso mesmo: seria mais um drama de uma criança abandonada, mas as pessoas sabem ser cruéis. Não vou dizer que a vida é injusta comigo, pois ela sempre esteve presente; afinal, ainda estou aqui escrevendo isso. Assim que nasci, fui abandonado em uma lixeira. Quem me encontrou foi o seu José, um senhor que trabalhava como gari. Logo retornei ao hospital, onde cuidaram de mim até a assistência social chegar. Uma criança sem pai e sem mãe vai para um orfanato, um lar de passagem ou qualquer coisa do tipo. Acontece que sou paraplégico, e ninguém quer levar problema para casa. Todos querem uma criança forte e saudável para correr e brincar pela casa; eu seria só um incômodo, um peso morto que tinha de ser carre...
Esquecida
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Provavelmente, em algum momento da sua vida você já passou por uma casa abandonada. Sabe aquela casa que parece estar no lugar errado, época errada, que simplesmente não se encaixa no ambiente. Eu vi uma casa assim. Quando passei pela frente, algo me chamou a atenção e reparei cada detalhe da construção. Não era uma casa grande, pelo contrário, era pequena, com o telhado sucumbindo ao tempo, grandes janelas de madeira apodrecidas pela umidade, paredes que descascavam seu reboco deixando tijolos à mostra, como alguém com a pele rasgada deixando seus músculos visíveis. Uma varanda cuja decadência acompanhava a casa, com o piso coberto de uma grossa camada de poeira acumulada como a terra que cobre o túmulo. Uma cadeira posicionada ao lado da porta, que agora serve apenas de alimento para os cupins, mas que um dia serviu de descanso para alguém. O que um dia devia ter sido um belo jardim, hoje abriga galhos secos, espinhos que um dia pertenceram a uma roseira, rosas qu...
Zé ninguém
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Sou um nada Digo isso não como se estivesse me fazendo de vítima. Digo isso por comprovação. Na arte de perder, acredito ser o melhor. Quando nasci, perdi minha mãe. Quando criança, perdi a infância. Quando adolescente, perdi a vontade. Não quero entrar em detalhes de toda a minha miserável vida. Vou tentar focar nos últimos anos, o que será fácil, pois estou tentando me matar aos poucos. Não mereço uma morte rápida. Você pode achar exagero, eu não ligo. E esse é o problema: parei de me importar com as coisas já tem um tempo. Não tenho família, nem emprego. Prolongo minha existência com alguns bicos que faço por aí. Meus dias são todos iguais. Acordo perto do meio-dia, caminho até o bar mais próximo, sento em uma mesa e começo a minha dieta à base de álcool. Gosto de me sentar de frente pra rua. Ali posso ver as pessoas passando, os carros passando, a vida passando. Sinto o mundo girar e eu parado. Enquanto todos se divertem, estou aqui embriagado. Escuto o som dos tacos de sinuca...
Décimo andar
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Me mudei há pouco tempo pra este apartamento. É pequeno, mal localizado e tem cheiro de carpete velho e úmido. Não conheço São Paulo, vim pra trabalhar numa filial nova da empresa onde fui contratado em Curitiba. Dez horas enfurnado em uma pequena sala com a cara na frente do PC. Há sete anos atrás achei que tecno em TI era legal, mas hoje vejo que não era o que eu queria. Meu dia se resume em acordar às seis, andar quinze minutos até a estação de metrô, pegar o metrô por mais vinte minutos, depois mais trinta minutos de ônibus, depois já na boca da noite fazer o caminho inverso. A monotonia e a solidão estavam me consumindo. Colocava a única cadeira que tinha em frente à janela e ficava olhando o movimento. Eu, do décimo andar, vendo tudo pequeno, distante, me sentia mais sozinho. Foi quando me senti observado. No prédio em frente ao meu uma luz brilhava pálida, uma luz fraca e amarela iluminava tímida uma mulher debruçada sobre a janela. Apesar da distância percebia-se que ela ...
Exílio
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Estou em um quarto decadente, de um hotel esquecido pelo tempo, por Deus e o diabo. Me distanciei de tudo e de todos. Preciso de um tempo pra pensar. Aqui é um ótimo lugar, pois nesse fim de mundo, onde o tempo se perde e o silêncio grita pedindo ajuda, encontrei um refúgio decrépito. Meu quarto tem vista para a estrada, que raramente passa alguns carros que quebram o silêncio com o som de seus motores, que roncam longe, crescem e diminuem até sumir novamente como um último suspiro. O campo de trigo do outro lado da rodovia brilha como ouro com o pôr do sol. A brisa que sopra leve acaricia o campo, que dança com movimentos leves e ritmados, quase hipnotizante. O dourado do campo contrastando com o asfalto que parece engolir a luz, com a absoluta escuridão. Rachaduras que parecem sorrir com sarcasmo para os transeuntes apressados que ignoram sua existência. A noite cai. A lua lá no alto, mesmo acompanhada de tantas estrelas, parece tão solitária. Pode parecer ego...
Lucy
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Lucy Não posso começar a contar essa história sem antes falar da mulher mais linda, inteligente, simpática, cuidadosa e carinhosa. Seu nome é Lucy. Uma luz na minha vida, mesmo que só tenha brilhado por um tempo. Eu tive um problema sério de saúde e precisei ficar internado. Foi lá que a conheci. Nos dias mais difíceis, ela era quem me dava atenção, quem cuidava de mim. Confesso que me acostumei mal com aquilo. Depois da alta, a vida voltou. Mas a minha não. Fico feliz de encontrá-la na rua às vezes e ver que ela continua bem. Mas pra mim, os melhores dias ficaram presos naquele quarto. Tentei outros relacionamentos, mas nada evoluiu. É engraçado como a vida prega peças. Eu fui pego por uma lembrança, e não tem graça. Passo horas imaginando nós dois juntos de novo. Sei que parece loucura. Talvez seja. Meus dias ficaram longos e tediosos. Meu pai me deixou uma grande empresa, então dinheiro não é problema. Só tempo. Tempo demais...