Exílio

 


Estou em um quarto decadente, de um hotel esquecido pelo tempo, por Deus e o diabo. Me distanciei de tudo e de todos. Preciso de um tempo pra pensar. Aqui é um ótimo lugar, pois nesse fim de mundo, onde o tempo se perde e o silêncio grita pedindo ajuda, encontrei um refúgio decrépito. 


Meu quarto tem vista para a estrada, que raramente passa alguns carros que quebram o silêncio com o som de seus motores, que roncam longe, crescem e diminuem até sumir novamente como um último suspiro. 


O campo de trigo do outro lado da rodovia brilha como ouro com o pôr do sol. A brisa que sopra leve acaricia o campo, que dança com movimentos leves e ritmados, quase hipnotizante. O dourado do campo contrastando com o asfalto que parece engolir a luz, com a absoluta escuridão. Rachaduras que parecem sorrir com sarcasmo para os transeuntes apressados que ignoram sua existência. 


A noite cai. A lua lá no alto, mesmo acompanhada de tantas estrelas, parece tão solitária. Pode parecer egoísmo, mas assim me sinto bem. Assim sei que não estou sozinho, mesmo que a minha solidão eu procurei, enquanto a lua não teve escolha. 


Esse quarto tem perfume de fundo do poço: uma mistura de umidade, ferrugem, madeira velha e tristeza. Tudo que preciso está aqui. Tudo que quero é irrelevante. Estou me desmontando pra tentar me remontar melhor. Vou conseguir? Não sei. Nada é certo, ou errado, ou nada, nada. Nem sei se algo que faço ou digo tem algum sentido. 


Escuto o eco aqui no fundo. Sim, os pensamentos ecoam no poço. Olhando para o alto posso ver um ponto de luz. Não a alcanço mais. Não tenho corda ou escada. Cadê a lua? Cadê a estrada? Onde está o quarto? Onde estou? 


São tantas perguntas que agora não posso responder. Não lembro de mim, ou de onde vim. A luz lá em cima está se apagando. Quem está fechando o poço? Mais uma pergunta sem resposta. Estou com sono. Nessa escuridão, nesse vazio da minha memória,

vou dormir.

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