Peças sobressalentes


 

A mulher que me carregava no ventre tentou um aborto, tentou me tirar à força, mas lutei. Houve mais duas tentativas frustradas, eu lutei e venci. Nasci quase saudável, pois as tentativas de me arrancar das entranhas da vida me tiraram os movimentos da cintura para baixo. Sim, é isso mesmo: seria mais um drama de uma criança abandonada, mas as pessoas sabem ser cruéis. Não vou dizer que a vida é injusta comigo, pois ela sempre esteve presente; afinal, ainda estou aqui escrevendo isso.

Assim que nasci, fui abandonado em uma lixeira. Quem me encontrou foi o seu José, um senhor que trabalhava como gari. Logo retornei ao hospital, onde cuidaram de mim até a assistência social chegar. Uma criança sem pai e sem mãe vai para um orfanato, um lar de passagem ou qualquer coisa do tipo. Acontece que sou paraplégico, e ninguém quer levar problema para casa. Todos querem uma criança forte e saudável para correr e brincar pela casa; eu seria só um incômodo, um peso morto que tinha de ser carregado.

Os anos se passavam e eu ainda estava ali, com esperança de que alguém enxergasse de verdade quem estava em cima daquela cadeira de rodas. Na escola, diziam que eu era o melhor aluno, nunca tive problemas para socializar. Mesmo assim, me deparei com meus treze anos e nenhuma família quis me dar um lar.

Quando faltavam apenas dois meses para eu completar quatorze anos, um milagre aconteceu. Uma família que morava na Suécia e tinha cidadania brasileira marcou uma visita comigo, o que significava que se interessaram por mim. Mostrei meu histórico escolar, minhas medalhas de matemática e xadrez. Não queria alimentar falsas esperanças — isso machuca quando nada dá certo —, porém eles marcaram uma reunião comigo e com o conselho de adoção. Finalmente! Achei que esse momento nunca chegaria. O que me separava de um lar de verdade era só a burocracia, que levaria três dias. E então... enfim, uma família.

Os dias se passaram e a hora de ir para casa chegou. Chegando lá, fui apresentado aos meus dois novos irmãos, Lars e Maja. Eles eram bem introspectivos. Hugo era meu novo pai, enquanto Astrid era minha nova mãe — ambos muito simpáticos e carinhosos. A casa era uma mansão, tinha de tudo, com comida só do bom e do melhor. Porém, essa era a casa de passeio, aqui no Brasil. Nosso voo para a Suécia sairia na sexta-feira; eu estava ansioso.

A viagem, apesar de longa, foi tranquila. Mesmo sendo cadeirante, não tive problema algum. Era a primeira vez que viajava de avião, foi uma experiência muito boa. Lars e Maja evitavam se comunicar comigo; notei que, nos dias que antecederam a viagem, sussurravam entre eles para que eu não pudesse ouvir. Tudo bem, posso me adaptar a isso, ou quem sabe só estavam estranhando o novo membro da família — o que me pareceu normal e aceitável.

Assim que chegamos ao aeroporto de Sigtuna, notei a cidade: tão diferente de tudo que vi, nem em filmes vi tanta tranquilidade e beleza. Depois de trinta minutos de carro, passando por paisagens que pareciam sair de um conto de fadas, chegamos ao novo lar. Outra mansão, essa em meio à natureza, com vastas terras, grama verde e árvores que tocavam o céu.

Me encaminharam ao meu quarto, no segundo andar. Disseram-me que meu quarto no térreo ainda não estava pronto. A escadaria me limitou bastante. A noite chegou, me acomodei para minha primeira noite em casa, quando Hugo entra pela porta e diz:

— Tenha uma boa noite. Espero que goste do nosso lar. Precisamos que você fique bem.

Depois de ter dito essas palavras, puxou minha coberta, saiu e fechou a porta. Então, ouvi a chave virando na fechadura do lado de fora.

Foi uma noite difícil, minha cabeça não parava de pensar. Tive dificuldades para assimilar tudo o que aconteceu nos últimos dias. Então me dei conta do silêncio; um incômodo tomou conta. Estalei os dedos para ter certeza de que não tinha ficado surdo. Muito estranho, nem mesmo um grilo. Nesse quarto, até meus pensamentos parecem gritar, mas o cansaço venceu minha paranoia e caí no sono.

Acordo com o barulho da fechadura. A porta se abre lentamente. Astrid me dá bom-dia em um português enrolado e diz que o café está servido; em seguida, ela desce as escadas. Noto que o quarto não deixa entrar luz do sol, pois só percebi que tinha amanhecido quando a porta foi aberta. Noto também que Astrid esqueceu que escadas e cadeira de rodas não combinam.

Logo em seguida, ela sobe as escadas carregando uma bandeja com meu café da manhã e um sorriso largo no rosto. Ela se desculpa pela falta de atenção, me diz que logo vai se adaptar a mim e acrescenta que Hugo havia saído, e ela não tem força suficiente para me ajudar a descer.

Passo o dia todo no segundo andar, olhando pela janela do corredor — a janela do meu quarto está emperrada. Ao olhar para aquela paisagem, me pego em tristeza por não ter minhas pernas boas. Queria correr naquele gramado verde, sentir o cheiro das flores, subir nas árvores que estendiam longos galhos, como se me convidassem para brincar.

A noite chega e Hugo também. Ele me ajuda a descer para o jantar. Conta sobre seu dia, Astrid também compartilha o dela, enquanto os irmãos ficam monossilábicos. Eu comento o quanto é lindo o jardim, olhando da janela lá de cima. Depois do jantar, Hugo me ajuda a subir até meu quarto e as ações da noite anterior se repetem, exceto pelo forte sono repentino. Escutei a porta se fechar e acordei em seguida. Parecia que tinha dormido alguns minutos, estava tudo tão escuro e silencioso que não fazia ideia de que horas eram. Voltei a dormir.

Acordo novamente e tudo estava como da última vez em que despertei. Impossível, parece que a noite não tem fim. No meio da escuridão, tateio para encontrar minha cadeira ao lado da cama, mas não a encontro. Meu coração acelera, uma ansiedade me domina. Fico deitado tentando me acalmar. O tempo passa e não me acalmo, só aumenta a angústia. Então, grito com toda a minha força. Ninguém atende ao chamado.

Passam-me mil coisas pela cabeça. Claro que era bom demais para ser verdade. Quando é que eu teria uma sorte dessa? Como fui idiota de achar que encontraria um bom lugar... As horas passam e não sei quanto tempo fiquei ali, com fome, sede e sem banheiro.

Então a chave gira do lado de fora da porta. A luz que entra quase me cega. Astrid me dá boa-tarde com aquele sorriso rasgado na cara. Junto dela está um senhor baixo, de meia-idade, usando um jaleco branco, que fala com Astrid algo em sueco. Olho em volta e minha cadeira realmente não estava dentro do quarto.

Começo a questionar o que estava acontecendo. Eles me ignoravam e continuavam a conversa; nem mesmo quando, aos berros, pedi explicações, eles sequer olharam em minha direção. Então o homem se aproximou e Astrid disse:

— Fique calmo, criança. Precisamos de você calmo.

Com uma habilidade imensa, o homem de jaleco me aplicou uma injeção. Tão rápido como um piscar de olhos, tudo girou e apagou.

Acordo amarrado em uma sala tão branca e tão iluminada que minha vista arde. Tento chamar alguém, mas minha língua está dormente, minha boca não mexe, meu corpo inteiro está paralisado. Entra uma equipe carregando algumas coisas — acho que eram materiais cirúrgicos — e tudo escurece outra vez.

Acordo novamente no meu quarto escuro. Tento pedir socorro, mas estou fraco. Ao me movimentar, sinto uma dor que rasga minhas costelas, peito, tudo. A porta se abre. A luz que entra no quarto revela toda a minha região torácica enfaixada. Hugo fala com uma voz calma e um sorriso no rosto:

— Fique calmo, criança. Você tem que se recuperar, ficar bem. Afinal, precisamos do outro rim... e do seu coração. Mas não agora. Na hora certa. Enquanto isso, fique calmo e saudável. Vamos cuidar de você.

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