Trono e pombos



Trono e pombos

 

Onde quer que eu olhe, lá estão eles sempre a me admirar; todos passam pra me ver sentado em meu trono, majestoso e inalcançável. Meu reino se espalha por todos os lados da praça; guardas cuidam dessas terras com suas vidas, sou grato. Levanto de meu trono de cimento e saio para minha caminhada real; deslizo sobre a calçada, passando pelas árvores que me reverenciam; o farfalhar das folhas soa como aplausos.

 

Boas pessoas oferecem marmitas a mim como forma de agrado à minha pessoa, pois sou benevolente. Às vezes, reis de outros reinos vêm me visitar, trazem bebidas para brindarmos, e a noite fica curta; perdemos a majestade e nos tornamos homens simples, se divertindo em uma noite qualquer.

 

Nas esquinas cumprimento os transeuntes, novamente agrados me vêm em forma de moedas; sou querido pelo meu povo. Agitadores começam uma briga, mas a guarda, sempre atenta, interrompe, levando-os para a prisão. Quando cai a noite, me acomodo em minha cama luxuosa, localizada à sombra da igreja, onde uma marquise me protege do sereno, e Deus me protege dos demônios. Nas noites de chuva canto e danço, deixando as águas lavarem todo o mal que se disfarça de fumaça, poeira e suor.

 

O sol da manhã vem secar meu corpo, o astro-rei me acaricia com seu calor do meio-dia, a brisa leve espalha o aroma delicioso da comida dos restaurantes em torno do meu reino; espero paciente pela refeição, que não vem em pratos de prata, e sim servida em sacos de lixo como restos; me esbaldo como um cão faminto, reviro latas numa disputa com outros reis loucos.

 

Com o estômago ainda reclamando, volto triste ao meu reino de ilusão; despido de fantasia, caio agora na desgraça da realidade. Meus devaneios se vão. Sou eu da realeza? Ou um louco real?

 

Volto ao meu banco de praça, que divido com pombos que perambulam pra lá e para cá atrás de algumas migalhas, assim como eu. Não sou um rei... seria eu então um pombo? Seria eu um louco? A noite cai e brigo com a lua, que insiste em ficar acesa; a chuva cai e molha meu corpo já doente; as pessoas me olham com desprezo e nojo.

 

Quero acordar um rei.

 

 

 

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