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Cara ou coroa?
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Cara Vou lhe contar toda a história, reuni forças para isso, todos precisam saber o que aconteceu, não consigo carregar mais esse fardo. Eu tinha um filho, oito meses, sim, isso mesmo, oito meses de vida, foi o que pôde viver. Oito meses de amor, carinhos e cuidados, foi uma gestação difícil, quase perdi meu pequeno. Ele era meu mundo, e foi tirado de mim, foi tirado do mundo. Existe um buraco na minha vida, e quem cavou... foi o monstro do meu marido. Nunca pôde ser chamado de pai, ele nunca aceitou nosso filho. Ele dizia: “Isso não é meu filho, isso é uma aberração, isso não deve nem ter um nome”. Sim, desde que meu filho nasceu ele o rejeitou. Nunca me deixou sair de casa, o parto foi natural, ele mesmo que me ajudou, nunca pretendeu registrar o anjo. Esse homem não pode ser chamado de humano. Logo depois da concepção, fiquei trancada no quarto. Ele me trazia remédios, dizia que era para anemia ou que era para aumentar a produção de leite, mas eu sabia que ele mentia. Ele queria ...
Todo dia
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Sempre sou cobrada no trabalho. Dizem: “Simpatia e sorriso no rosto atraem os clientes”, ou “Mesmo que tenha problemas a serem resolvidos, deixe-os do lado de fora; quando entrar na loja, sua prioridade são os clientes”. Trabalho em uma joalheria que atende a um público exigente e com muito dinheiro; esse tipo de pessoa se acha melhor por ter uma conta bancária gorda. Acontece que manter um sorriso no rosto é difícil, muito difícil, quando você está sempre sob pressão. E não falo só do trabalho; falo sobre a vida, as pessoas em volta... quando você é mulher, tudo parece mais assustador. Acordo às cinco e meia da manhã para chegar ao trabalho às oito. Saio de casa ainda escuro; toda sombra parece ameaçar. Caminho rápido até chegar à estação. Parece contraditório, mas se eu tinha medo de estar sozinha na rua, tenho mais medo agora no meio desse mar de gente. Cerca de 1,3 milhão de trabalhadores levam mais de 2 horas só de ida — e a maioria usa transporte público. Não posso me atr...
Trono e pombos
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Trono e pombos Onde quer que eu olhe, lá estão eles sempre a me admirar; todos passam pra me ver sentado em meu trono, majestoso e inalcançável. Meu reino se espalha por todos os lados da praça; guardas cuidam dessas terras com suas vidas, sou grato. Levanto de meu trono de cimento e saio para minha caminhada real; deslizo sobre a calçada, passando pelas árvores que me reverenciam; o farfalhar das folhas soa como aplausos. Boas pessoas oferecem marmitas a mim como forma de agrado à minha pessoa, pois sou benevolente. Às vezes, reis de outros reinos vêm me visitar, trazem bebidas para brindarmos, e a noite fica curta; perdemos a majestade e nos tornamos homens simples, se divertindo em uma noite qualquer. Nas esquinas cumprimento os transeuntes, novamente agrados me vêm em forma de moedas; sou querido pelo meu povo. Agitadores começam uma briga, mas a guarda, sempre atenta, interrompe, levando-os para a prisão. Quando cai a noite, me acomodo em minha cama luxuosa, lo...
Peças sobressalentes
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A mulher que me carregava no ventre tentou um aborto, tentou me tirar à força, mas lutei. Houve mais duas tentativas frustradas, eu lutei e venci. Nasci quase saudável, pois as tentativas de me arrancar das entranhas da vida me tiraram os movimentos da cintura para baixo. Sim, é isso mesmo: seria mais um drama de uma criança abandonada, mas as pessoas sabem ser cruéis. Não vou dizer que a vida é injusta comigo, pois ela sempre esteve presente; afinal, ainda estou aqui escrevendo isso. Assim que nasci, fui abandonado em uma lixeira. Quem me encontrou foi o seu José, um senhor que trabalhava como gari. Logo retornei ao hospital, onde cuidaram de mim até a assistência social chegar. Uma criança sem pai e sem mãe vai para um orfanato, um lar de passagem ou qualquer coisa do tipo. Acontece que sou paraplégico, e ninguém quer levar problema para casa. Todos querem uma criança forte e saudável para correr e brincar pela casa; eu seria só um incômodo, um peso morto que tinha de ser carre...
Esquecida
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Provavelmente, em algum momento da sua vida você já passou por uma casa abandonada. Sabe aquela casa que parece estar no lugar errado, época errada, que simplesmente não se encaixa no ambiente. Eu vi uma casa assim. Quando passei pela frente, algo me chamou a atenção e reparei cada detalhe da construção. Não era uma casa grande, pelo contrário, era pequena, com o telhado sucumbindo ao tempo, grandes janelas de madeira apodrecidas pela umidade, paredes que descascavam seu reboco deixando tijolos à mostra, como alguém com a pele rasgada deixando seus músculos visíveis. Uma varanda cuja decadência acompanhava a casa, com o piso coberto de uma grossa camada de poeira acumulada como a terra que cobre o túmulo. Uma cadeira posicionada ao lado da porta, que agora serve apenas de alimento para os cupins, mas que um dia serviu de descanso para alguém. O que um dia devia ter sido um belo jardim, hoje abriga galhos secos, espinhos que um dia pertenceram a uma roseira, rosas qu...
Zé ninguém
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Sou um nada Digo isso não como se estivesse me fazendo de vítima. Digo isso por comprovação. Na arte de perder, acredito ser o melhor. Quando nasci, perdi minha mãe. Quando criança, perdi a infância. Quando adolescente, perdi a vontade. Não quero entrar em detalhes de toda a minha miserável vida. Vou tentar focar nos últimos anos, o que será fácil, pois estou tentando me matar aos poucos. Não mereço uma morte rápida. Você pode achar exagero, eu não ligo. E esse é o problema: parei de me importar com as coisas já tem um tempo. Não tenho família, nem emprego. Prolongo minha existência com alguns bicos que faço por aí. Meus dias são todos iguais. Acordo perto do meio-dia, caminho até o bar mais próximo, sento em uma mesa e começo a minha dieta à base de álcool. Gosto de me sentar de frente pra rua. Ali posso ver as pessoas passando, os carros passando, a vida passando. Sinto o mundo girar e eu parado. Enquanto todos se divertem, estou aqui embriagado. Escuto o som dos tacos de sinuca...